Sala de Espera

  • Atomic Garden
    Idade: 19
    Lugar: Chapecó, SC.
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  • Lipedal
    Idade: 19
    Lugar: Santo Ângelo, RS, no meio da roça missioneira.
    Condição: Demofobia e Nerdice Aguda. Foi ao Mundo Real duas vezes, durante as quais ganhou uns graus de miopia devido à exposição ao sol.
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    Idade: 20
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    Condição: Psicose e Esquizofrenia. Obsessão compulsiva por filmes clássicos de terror brutal e trash em geral.

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A Festa do Cálice Verde

Por Lipedal || 14:50:00 || 14 de mai de 2006
Nandão tinha um blog relativamente conhecido na área de tecnologia e nerdices em geral. Era um rapaz respeitado no mundo bloguístico, tendo até um ou outro fã tarado pelos seus posts. Ele nunca havia conhecido nenhum amigo virtual pessoalmente, e os motivos eram claros: no Mundo Real, Nandão era Fernando, um garoto alto e magro de 20 anos, conhecido por ficar vermelho ao olhar para meninas e por ter o andar parecido com o de um pingüim. Sua mãe o chamava de Fêr.

Então não foi sem certo aperto no coração que Nandão leu um e-mail convidando-o para a já muito falada Festa do Cálice Verde. De acordo com o que lera até então, a Festa do Cálice Verde prometia reunir os maiores (e os medianos) blogueiros do país em um amplo salão de festas nos arredores de Campinas. Nandão engoliu em seco. Já havia ouvido de tudo sobre o evento, desde teorias conspiratórias sobre extermínio violento do "movimento blogueiro" até boatos sobre um suposto chá aluginógeno que faria a festa dar lugar a uma orgia de proporções megalômanas. O que ele nunca imaginou é que seria convidado.

No fim das contas, pensou Nandão, a festa não ia ser tão estranha, considerando que seria uma projeção de seu ambiente virtual no Mundo Real. Muitos de seus ídolos estariam lá, e quem sabe até fãs. Aceitou o convite.

No dia marcado, Fernando se produziu como nunca. Passou até o desodorante roll-on de seu pai e um creme para cabelos da irmã mais velha. Ouviu pela primeira vez a mãe recomendar-lhe que tivesse juízo, e então entrou no táxi. O tímido menino mongo não conseguiu puxar assunto com o motorista, então foi quieto e vermelho até a rua do salão de festas.

De longe Fernando ouviu a música eletrônica ditando o ritmo de seu coração. Desde os tempos de colégio não entrava em um lugar com mais de 5 pessoas. Talvez uma faculdade pudesse ter lhe feito bem, mas não, "meu Fêr vai ficar em casa".

- O-oi, eu sou o Nandão, do Hi-Nerd...
- O porteiro é aí do lado, cara.

Se apresentou devidamente ao porteiro, tremendo como não seria possível no amigável mundo virtual, e entrou. Imaginava um encontro cult de pessoas conversando em mesas ao redor de uma piscina, mas isso foi exatamente o oposto do que ele viu. Luzes acendiam e apagavam mais rapidamente do que os temidos gifs piscantes de MSN, com a diferença de que dessa vez ninguém reclamava. Ele já tinha visto isso num vídeo da internet. Nele, uma garota bêbada confessava que queria copular com todo e qualquer ser do sexo masculino que visse pela frente. Fernando sentiu o coração subir à garganta. Um rapaz gingando ridiculamente se aproximou dele e gritou a plenos pulmões:

- Cê não é o Nandão do Hi-Nerd?
- Quê?
- Cê não é o Nandão do Hi-Nerd?
- Ah, sim! Sou eu!
- Looooool!

O rapaz foi embora, com um dedinho pra cima e gingando mais ridiculamente ainda. Nossa, como Nandão odiava quem falava "lol" no Mundo Real. Encostou-se na parede.

Após cerca de duas horas de música eletrônica repetitiva, um homem com uma máscara verde carregando um cálice vazio subiu ao palco e foi iluminado por todas as luzes, que pararam de piscar. A música assumiu um tom tenso. Ele pegou o microfone e saudou seus convidados. Após um breve discurso sobre a importância do Movimento Blogueiro no cenário mundial, o homem tirou a máscara e despejou o conteúdo verde dela dentro do cálice que portava. "E eis o Cálice Verde!", bravejou, enquanto as luzes do salão acendiam-se e bandejas suspensas desciam do teto cheias de taças portando a mesma bebida esverdeada que o homem misterioso acabara de apresentar.

Fernando estendeu a mão para a bandeja mais próxima e cheirou o conteúdo do cálice. "Merda, álcool", pensou. Teria que ficar sem beber o símbolo sagrado da festa, mas ainda devia haver muitas coisas que ele poderia aproveitar. Não, não devia. Enquanto todos gritavam entusiasmados e secavam seus primeiros cálices, ele se dirigia à saída do salão. Ficara com sede, e estranhamente não via nenhuma outra bebida à venda nos bares do lugar. No caminho um homem o parou, gritando em seu ouvido:

- Ei, não é o Nandão do Hi-Nerd?
- Esse mesmo.
- Cara, adorei teu post sobre o Red Hat!
- Ah, aquele foi tirado de um outro blog.
- Hmm... Tô ligado... Vou lá ver se eu encontro um amigo, falou!

Fernando conversou com o porteiro, num gesto súbito de coragem, e recebeu um carimbo no braço pra provar que era convidado na hora que voltasse. Andou pela quadra, tremendo de frio e de medo de assaltantes ou estupradores, e por fim achou um bar. Comprou uma garrafinha de guaraná e voltou para a festa. Entrou, mostrando o carimbo, e logo foi chamado por um cara perto do banheiro. Fernando foi lá apenas pra ouvir um "opa, foi mal, te confundi com um amigo". Quando voltou a garrafa estava pela metade. O Mundo Real era mais cruel do que ele imaginava. E ele era mais ingênuo do que o Mundo Real imaginava.

A festa durou mais algumas horas. Todos já balançavam ridiculamente, com gestos de "quero laçar um touro" e de "oi estou te encoxando". O garoto nerd ficava imaginando o que levava seus blogueiros favoritos, aqueles caras sérios, sarcásticos e críticos, a agir como cachorros. A parte de cheirar os traseiros alheios já estava acontecendo por todo o salão, só faltava alguém levantar uma perna e mijar na parede. Um homem ali perto baixou as calças, levantou uma perna e mijou na parede. Fernando sorveu mais um pouco de sua garrafa de bebida não-alcóolica, provavelmente a única dentro daquele lugar.

De repente, em um piscar de olhos, a música parou. Um silêncio ensurdecedor percorreu os ouvidos de todos os presentes. As criaturas dançantes, que há algumas horas poderiam ser classificadas como pessoas, caíram todas no chão com um baque surdo, seguido pelo barulho dos cálices se espatifando por todos os lados. Três ou quatro pessoas quietas encostadas nas paredes permaneceram de pé, com olhares assustados. Fernando viu o homem da máscara, juntamente com o porteiro e alguns sujeitos de terno, saindo do salão às pressas e entrando em uma van, que logo sumiu de vista. Os poucos e tímidos sobreviventes gritavam horrorizados, segurando suas latas de refrigerante, enquanto uma infinidade de policiais estacionavam seus carros na rua e entravam armados no salão, seguidos por dezenas de ambulâncias.

Fernando olhou para a garrafa em suas mãos e pensou: "Merda, ecstasy no guaraná é sacanagem."

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