Sala de Espera

  • Atomic Garden
    Idade: 19
    Lugar: Chapecó, SC.
    Condição: Frescura.
  • Lipedal
    Idade: 19
    Lugar: Santo Ângelo, RS, no meio da roça missioneira.
    Condição: Demofobia e Nerdice Aguda. Foi ao Mundo Real duas vezes, durante as quais ganhou uns graus de miopia devido à exposição ao sol.
  • Vexille
    Idade: 20
    Lugar: Recife, PE. É o único do consultório que mora numa cidade de verdade.
    Condição: Psicose e Esquizofrenia. Obsessão compulsiva por filmes clássicos de terror brutal e trash em geral.

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Lipedal no Mundo Real - Parte 2

Por Lipedal || 01:57:00 || 17 de jun de 2006
Bom, lá vamos nós pra mais um pouco de diarinho, já que eu prometi que postava hoje e não tenho nada melhor em mente. A faculdade destrói a cabeça do cara, incrível. Ah, as aulas inseridas no meio das partidas de truco também.

Então deixem-me vasculhar o cérebro pra ver o que aconteceu de interessante nessa semana fora o anúncio de que terei uma prova de Cálculo na terça-feira. Ô delícia.

...

Então, depois do animadíssimo e excitante jogo de terça-feira, durante o qual a cidade estava enfeitada com bandeirinhas do nosso time, lembrei que quinta-feira seria feriado e que, estando em uma universidade pública, eu poderia vir para casa na quarta sem maiores constrangimentos. Oficialmente teríamos aula na sexta, acho. Mas foi mais ou menos assim:

- Pessoal, como vocês sabem sexta-feira vocês não tão liberados pra ficar em casa.
- Ahhhhhhhh.
- E eu sou pago pra vir aqui e dar aula, vocês têm que me entender.
- Ahhhhhhhh.
- Mas se ninguém vier, eu nem tenho como dar aula, né?
- Ééééééééé.
- Beleza então. Até segunda!

A professora de inglês foi mais direta, disse logo um "até semana que vem, porque quinta é feriado, então vocês nem vão vir na sexta". Sendo assim, vim pra casa quarta-feira.

Pausa pra falar da professora de inglês. A mulher é doidona. Ela deve ter seus 20 e poucos anos, mais nova que alguns colegas meus, e parece ficar excitada de estar em meio a 33 machos sem nenhuma (0) menina. Aí ela é toda acesa, só falta dar pulinhos na sala de aula. Mas calma, ela ainda não resolveu tirar a roupa pra explicar como se fala "umbigo" em inglês. Como se fala "umbigo" em inglês?

Tendo quase a nossa idade e sendo feliz como ela é, é inevitável que nós sejamos sacaneados pela jovencita empolgada. O primeiro texto do ano foi sobre um site americano ULTRA-MEGA-HIPER-INOVADOR que falava sobre, tcharam, A HISTÓRIA DOS VIDEOGAMES. De acordo com o texto, era o primeiro site do mundo a falar sobre a história dos videogames. Então esqueçam todas as páginas que vocês já viram sobre o assunto, incluindo o Baú de Jogos e todos aqueles sites menores com template de Word que contam detalhadamente a trajetória do brinquedo que foi de bater quadradinhos brancos a matar iraquianos em pleno território deles acusando-os de terroristas. Na verdade foi tudo ilusão. O primeiro site sobre isso NO MUNDO foi aquele do texto, que vai ser lançado em julho. Se eu fizer um agora e lançar em fim de junho, isso não importa. Eu sou brasileiro e obviamente o primeiro site sobre o assunto foi (vai ser) americano, com apoio de faculdades e o diabo a quatro.

Mas até aí tudo bem, em relação à professora. No outro dia ela apareceu com um texto sobre o beijo gay da novela América, o beijo que não foi e não sei o que mais, com direito a Glória Perez dizendo "foi uma pena, os atores estavam tão empolgados nos ensaios". No meio do texto, um executivo da Globo dizia que a audiência do último capítulo da novela foi maior do que a da final da Copa do Mundo de 2002. De cada 33 alunos da sala, 33 não viram o último capítulo da novela, mas estatísticas da Globo são estatísticas da Globo, quem sou eu pra discordar?

Depois do artigo do beijo gay, a mulher vem com um outro sobre uma professora que seduziu um aluno. Entenda a frase acima como "tá doida pra dar". Ainda há os trocadilhos infames e tal, mas pra completar a sacanagem a ilustríssima nossa professora de inglês colocou uma música odiosamente melosa, daquelas que não dá pra ouvir nem com a namorada, à luz de velas, numa noite de lua cheia, comemorando o aniversário de 1 ano de namoro. E a música dizia:

I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
I can't take my eyes off of you...
(x3)


Leve em consideração que cada verso leva uns 10 segundos pra ser resmungado, com direito a respiração ofegante de quase-morto, e você terá 6 minutos extremamente sofridos de aula. Ah sim, agora imagine essa música sendo tocada duas vezes e ouvida com atenção, pra completar na folhinha, em meio a 33 machos. Deve dar pra imaginar o quão ansioso eu estou para que chegue a próxima aula de inglês.

Mas enquanto esse momento não chega, vou falando sobre minha viagem pra cá.

Quarta-feira comprei a passagem pra Santo Ângelo. Todos os ônibus tavam lotados, tinha um às 20:30 com algumas poltronas vagas. Serve. Coloquei o relógio pra despertar às 19:15 e no horário determinado saí da esplendorosa aula de Geometria Analítica dando saltinhos de alegria, com a mala a tiracolo. Tava tudo calculado: 25 minutos até a cidade, 10 minutos até a parada onde pegaria o ônibus pra rodoviária, 10 minutos até a rodoviária e pronto, chegaria às 20:00, a tempo de comer alguma coisa na lanchonete enquanto esperava o transporte pra Santo Ângelo.

Como sempre, deu tudo errado. Meus cálculos não bateram com os cálculos dos motoristas da cidade, o que me fez chegar morrendo de fome às 20:20 na lanchonete da estação. Não tinha batata frita. Não tinha cachorro quente. Tinha um pastel frio. "Me vê um xis".

Eu não sabia que um xis demorava tanto pra ficar pronto, então peguei aquela coisa ainda meio aberta e com alguns ingredientes tacados às pressas lá dentro, embalei e corri pra pegar o ônibus a tempo. Cheguei na poltrona que eu queria, que dessa vez não estava ocupada, desempacotei o xis e comecei a comer como um desesperado. Alguém no banco da frente falou algo sobre cheiro de comida e sobre "meu Deus, agora vou morrer de fome". Devia ter alguém com comida na frente delas. Crueldade.

Uma senhora chique sentou-se ao meu lado. Eu resolvi usar a velha premissa de que "ninguém me conhece mesmo" e comecei a me fingir de louco ao lado da mulher. Comi aquele xis como um bárbaro que esteve hibernando numa caverna durante os últimos milhões de anos, o que atraiu olhares reprovadores por parte da senhora. Ela tava com vontade de poder comer como um bárbaro pelo menos uma vez na vida, percebi pelo olhar. Tá, na verdade eu tava de cabeça abaixada olhando pra comida, mas eu vi os olhos dela de relance refletidos numa casquinha de tomate.

Arrotei baixo o suficiente pra somente a mulher ouvir.

Guardei a sacola com o guardanapo não usado e tudo o mais dentro do meu casaco, deitei o banco e me acomodei. Eu não consigo dormir em viagem à noite, como já devo ter citado, por razões que envolvem um aspirante a cineasta, um script já postado aqui e a música do Silent Hill, mas dessa vez eu não ia poder dormir nem se tivesse morrendo de sono. Explico.

A mulher, depois que seu medo passou, resolveu que já podia fechar os olhos sem temer ser comida sem dó como aquele xis que agora dava soquinhos nas paredes da minha traquéia, provocando algumas tosses e arrotos bruscos. O problema é que a senhora chique, pelo jeito, nunca tinha viajado de ônibus e não sabia que nesses meios de transporte costuma-se dividir as poltronas: fulano fica com uma, sicrano com outra. Ela, em seu estado de já inconsciência profunda, descobriu que dormir sentado era chato e foi caiiiiindo.

Tossi. Ela ajeitou a cabeça no lugar.

E foi caiiiiindo. Tossi.

Ela se ajeitou e de novo foi caiiiiindo. Me virei pro lado e fiz de conta que tava dormindo, pra evitar o constrangimento (e o bafo) de quando ela se acordasse e percebesse que tava dormindo recostada num bárbaro que esteve hibernando numa caverna durante os últimos milhões de anos. E foi assim das 20:45 às 22:30, mais ou menos, quando ela acordou numa boa e fez o favor de não me deixar passar da janela para o corredor enquanto eu segurava meus genitais desesperadamente como se aquilo fosse adiantar alguma coisa, quando, pelo contrário, eu só ia ficar com as mãos mijadas.

Comprei uma garrafinha de Fruki Cola no posto (santo posto, deve ser o único lugar no RS onde tem refrigerante que não seja da Coca-Cola pra vender), voltei para minha poltrona com dificuldade, porque a mulher fingiu dormir só enquanto eu tentava passar do corredor para a janela, e me acomodei novamente. O ônibus andou. A mulher lembrou que agora eu estava do lado dela. E foi caiiiiindo.

Foi assim até o final da viagem, quando ela abriu os olhos prontamente e deixou claro que não tinha sono nenhum. Lembrando agora, a senhora só pode ter tido vontade de dormir como um bárbaro uma vez na vida. Afinal, ninguém a conhece mesmo.

Moral da história: da próxima vez meu relógio desperta às 19:00.

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