Prosa estática
Por Atomic_Garden || 21:38:00 || 20/08/2008
"(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!
... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas..."
Mário Quintana, Poema Transitório
...mas eu não sou nem da partida e nem da chegada. Não escolho destino a qual ir e nem porto para atracar. Escolher é errar. E minha alma não aceita errar conscientemente. E não há viagem longa o suficiente para remediar a minha alma.
Minha única urgência é a paz. Mas não parto até ela porque partir é errar. E partir é um erro pois há sempre o chegar logo após o partir. E chegar é um erro porque chegar a qualquer lugar é sempre chegar a um mesmo lugar que é nós mesmos (e portanto, sem paz).
(...)
Neste meu silêncio, um pardal acaba de chegar (depois de ter partido de algum lugar) a um destino qualquer perto de mim. E logo partiu novamente, pois precisava chegar a um outro lugar que nem eu e nem ele sabemos qual é, e portanto um lugar sem erros. O pardal não erra, e nem sofreria o erro caso capaz fosse. Porque partir e chegar não são erros para quem é inconsciente da partida e da chegada. E por isso que a única urgência do pardal é Ser, porque ele não sabe quem é. E porque ele não chega em si.
Mas eu, que não sou o pardal e ao mesmo tempo sou pardal, porto, partida, chegada, viagem, rumo, destino e urgência, busco a paz do modo contrário a que o pardal encontra seu rumo: consciente.
E consciente de que partir é um erro, resigno do meu desejo de fugir para algum lugar, e consciente de que existir é um erro, parto para lugar algum.
Marcadores: a